O quintal como unidade de medida portuguesa equivale a quatro arrobas. Na Inglaterra e Estados Unidos também é usado como unidade de medida de equivalência complexa para a cubagem de volume: quintal curto, métrico, longo ou britânico.  O quintal, como pequena propriedade rural portuguesa (ou uma pequena quinta), se traduziu no Brasil em quintal como área dos fundos da residência brasileira onde se plantavam frutas e hortaliças, onde se abrigava a “casinha” para higiene pessoal e a área de cozinha, para tratar e defumar as carnes, lavar a roupa, guardar a charrete e o cavalo. Uma área reservada e acessada apenas pelos habitantes da casa.  Com a evolução das cidades, o quintal passou a ser aberto para pequenas reuniões de lazer, almoços de família, mas com acesso ainda reservado e íntimo.   O quintal se transforma em lugar seguro para brincadeiras de criança, correndo atrás de galinhas, subindo em árvores, alinhando pedras, cavando buracos, procurando tesouros escondidos.  É a esse quintal que Gustavo se refere quando se coloca à frente de formas e corestecidas na memória.   Cores saturadas para objetos ordinários, para que não sejam esquecidos no tempo, arquiteturas precárias com intenções de sonho, resistindo no espaço. Tecidos revirados rememorando movimentos de corpos.  O quintal é seu espaço de recuperação de emoções sem filtro de tempo, território, licença ou direitos.  Uma unidade de medida do cotidiano que ele captura desde sempre no seu espaço mais intimo que é a sua terra.   Rosely Nakagawa
       
     
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                                    AS PRIMEIRAS LUZES DO SONHO              Após dois livros extraordinários,  Imaginário  e  Do Reino Encantado , o primeiro reunindo visões sertanejas plenas de cores - a pletórica alegria cromática da alma popular -, o segundo sobre o sertão mítico da infância perdida de Ariano Suassuna, nosso Imperador da Pedra do Reino, Gustavo Moura, um dos grandes fotógrafos do Brasil de hoje, encara o tema dos temas nacionais: o futebol. Não pensemos no futebol dos grandes estádios, dos grandes ídolos, não nos lembremos em vão das saudosas imagens dos documentários cinematográficos do  Canal 100 , que sem dúvida povoaram a infância de nós ambos, companheiros que somos de geração.              O futebol do presente ensaio de Gustavo Moura é um território do sonho, o mundo lúdico, morto e imortal da infância, destituído intrinsecamente de interesses e de tudo mais que não seja a demasiadamente humana essência do  jogo . Brincar, é esse o verbo de toda infância, o verbo que, após perder para nós quase completamente o significado, assoberbados pelas necessidades do viver, retorna bruscamente através dos nossos filhos, como uma ressurreição.              Se os primeiros contatos fisicos com nossos pais e família são o nosso aprendizado de entrada no mundo, é com a brincadeira, com o jogo, que iniciamos o nosso aprendizado dos outros, desse microcosmo que um dia se transformará para nós na sociedade, com tudo o que ela tem de insubstituível e cruel. É desse mundo de aprendizado e de júbilo, refresco das horas e rito de passagem, que o fotógrafo extrai seus momentos petrificados, seus flagrantes de eleição, vida subitamente paralisada e exatamente por isso salva, já que toda vida é movimento, e todo o movimento destruição.              Não sabemos qual mais admirar entre esses flagrantes de belíssima luminosidade sépia. O menino que, sob uma baliza submersa, se projeta escultoricamente para agarrar uma bola lançada por um companheiro invisível, em um campo possivelmente erguido sobre o leito de um rio temporário, continuidade da alegria humana por cima das metamorfoses indiferentes da natureza. Ou o outro menino que se eleva numa audaciosa pirueta no ar, talvez ensaiando uma  bicicleta , sob uma luz rasante de entardecer, as pernas voadoras projetando uma sombra infinita, a poeira levantada pelo arranco dos pés brilhando no espaço, um brilho que me recorda, ao primeiro contato, a poeira levantada pela dança frenética do protagonista de  A Terra , de Dovchenko, no caminho inesperado da própria morte, um dos mais belos instantes da história da imagem em movimento. Ou ainda o outro menino que cabeceia para o oceano, como que jogando com a imensidade. Ou a baliza deserta sob um imponente e solitário mandacaru. Ou o menino orgulhoso que, de braço quebrado, posa com a bola presa sob o pé, confiança infantil, confiança perfeita na superação das vicissitudes do instante.              Entre todas elas, uma nos parece das mais emblemáticas, a figura gravada na pedra de um pequeno jogador, sob um cacto. Como as itaquatiaras ancestrais, como esses primórdios mais ou menos rudes da arte humana, ressalta nessa imagem a compulsão natural da espécie em marcar a própria passagem, em triunfar sobre o tempo ou, em resumo, sobre a morte. A mão de um dos muitos descendentes dos primeiros homens que cobriram os paredões de todo o nosso imenso território com tantas visões do real ou do sonho, repetiu inadvertidamente o gesto ancestral. E o olhar de Gustavo Moura, esse grande artista tão cheio de brasilidade, daquela brasilidade que persevera e nos consola, conservou-o ciosamente para todos nós.  Alexei Bueno 23/05/2006
       
     
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