










AS PRIMEIRAS LUZES DO SONHO
Após dois livros extraordinários, Imaginário e Do Reino Encantado, o primeiro reunindo visões sertanejas plenas de cores - a pletórica alegria cromática da alma popular -, o segundo sobre o sertão mítico da infância perdida de Ariano Suassuna, nosso Imperador da Pedra do Reino, Gustavo Moura, um dos grandes fotógrafos do Brasil de hoje, encara o tema dos temas nacionais: o futebol. Não pensemos no futebol dos grandes estádios, dos grandes ídolos, não nos lembremos em vão das saudosas imagens dos documentários cinematográficos do Canal 100, que sem dúvida povoaram a infância de nós ambos, companheiros que somos de geração.
O futebol do presente ensaio de Gustavo Moura é um território do sonho, o mundo lúdico, morto e imortal da infância, destituído intrinsecamente de interesses e de tudo mais que não seja a demasiadamente humana essência do jogo. Brincar, é esse o verbo de toda infância, o verbo que, após perder para nós quase completamente o significado, assoberbados pelas necessidades do viver, retorna bruscamente através dos nossos filhos, como uma ressurreição.
Se os primeiros contatos fisicos com nossos pais e família são o nosso aprendizado de entrada no mundo, é com a brincadeira, com o jogo, que iniciamos o nosso aprendizado dos outros, desse microcosmo que um dia se transformará para nós na sociedade, com tudo o que ela tem de insubstituível e cruel. É desse mundo de aprendizado e de júbilo, refresco das horas e rito de passagem, que o fotógrafo extrai seus momentos petrificados, seus flagrantes de eleição, vida subitamente paralisada e exatamente por isso salva, já que toda vida é movimento, e todo o movimento destruição.
Não sabemos qual mais admirar entre esses flagrantes de belíssima luminosidade sépia. O menino que, sob uma baliza submersa, se projeta escultoricamente para agarrar uma bola lançada por um companheiro invisível, em um campo possivelmente erguido sobre o leito de um rio temporário, continuidade da alegria humana por cima das metamorfoses indiferentes da natureza. Ou o outro menino que se eleva numa audaciosa pirueta no ar, talvez ensaiando uma bicicleta, sob uma luz rasante de entardecer, as pernas voadoras projetando uma sombra infinita, a poeira levantada pelo arranco dos pés brilhando no espaço, um brilho que me recorda, ao primeiro contato, a poeira levantada pela dança frenética do protagonista de A Terra, de Dovchenko, no caminho inesperado da própria morte, um dos mais belos instantes da história da imagem em movimento. Ou ainda o outro menino que cabeceia para o oceano, como que jogando com a imensidade. Ou a baliza deserta sob um imponente e solitário mandacaru. Ou o menino orgulhoso que, de braço quebrado, posa com a bola presa sob o pé, confiança infantil, confiança perfeita na superação das vicissitudes do instante.
Entre todas elas, uma nos parece das mais emblemáticas, a figura gravada na pedra de um pequeno jogador, sob um cacto. Como as itaquatiaras ancestrais, como esses primórdios mais ou menos rudes da arte humana, ressalta nessa imagem a compulsão natural da espécie em marcar a própria passagem, em triunfar sobre o tempo ou, em resumo, sobre a morte. A mão de um dos muitos descendentes dos primeiros homens que cobriram os paredões de todo o nosso imenso território com tantas visões do real ou do sonho, repetiu inadvertidamente o gesto ancestral. E o olhar de Gustavo Moura, esse grande artista tão cheio de brasilidade, daquela brasilidade que persevera e nos consola, conservou-o ciosamente para todos nós.
Alexei Bueno
23/05/2006